quarta-feira, 3 de junho de 2009


Contudo o comandante do Californian, Stanley Lord, talvez mentisse para se descartar das suas responsabilidades.
E è a comissão de inquérito. Passageiros com rostos ainda marcados pelo drama, oficiais importantes, tentando explicar uma catástrofe que os ultrapassa, engenheiros, planos do navio na mão e números na boca. Stanley Lord desculpa-se, escreve um diário de bordo, apoia-se no testemunho dos seus homens. Não, o seu Californian não estava a menos de 10 milhas do Titanic. Questionam-no: «Vimos as luzes do seu barco». Não era ele. «A vossa intervenção poderia ter salvado 1.000 pessoas». «Eu estava demasiado longe para identificar os foguetes de pedido de socorro».
Sempre o mesmo refrão. À falta do comandante do Titanic ou do seu imediato, desaparecidos na catástrofe, procurava-se um culpado. Havia um navio perto do Titanic. O mais próximo era o Californian, então era ele o navio desconhecido. Assim o queria a lógica do raciocínio, a lógica absurda que tentava apanhar o mistério marinho impossível de agarrar. Lord continuava a protestar; afastava as questões insidiosas, repetia a suas explicações. Além disso, o caso do Titanic desfiava-se no processo. O drama transformava-se em relatórios e em pastas.
Juízes e escribas sucediam aos marinheiros e ao pó dos tribunais ao vento do alto mar. O navio sombrio, o testemunho impassível da agonia do Titanic, dominava as ideias dos investigadores, mas escapava às suas buscas e às suas deduções. Editaram-se medidas de segurança: separação mais forte dos cascos em compartimentos, escuta permanente do rádio nas embarcações com uma certa tonelagem, caça aos icebergues. Mais técnica e menos orgulho.
Os anos passam, as polémicas esbatem-se. Pouco a pouco o naufrágio do Titanic ganha a sua dimensão lendária.
Por vezes um artigo, um livro, um filme, acabam de consolidar na história o drama do paquete gigante. Nesta altura, partidários e detractores de Stanley Lord ainda se confrontam.

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