quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Socorro a Náufragos


A construção de embarcações especialmente concebidas para socorros a naufrágios só começou a ser feita em finais do século XVIII em face do número alarmante de navios perdidos na aterragem às costas da Europa, nomeadamente vindos do Atlântico para a Irlanda ou Inglaterra e também no Mar do Norte para os países nórdicos.
As primeiras embarcações a ser construídas para salva-vidas eram normalmente baleeiras, de formas finas e de proa e popa erguidas relativamente ao meio da embarcação o que lhes permitia resistir mais facilmente à ondulação quer viesse da proa quer viesse da popa. Eram movidas por remos, dez ou mais remos, que tinham a vantagem de dar mais estabilidade à embarcação que era, na prática, quase impossível de se virar com o estado do mar.
Coincide essa altura com o aparecimento de Sociedades Humanitárias que dedicam a sua actividade ao salvamento de náufragos.
Com o correr dos tempos e o aparecimento da construção naval de ferro e até em alumínio foram surgindo outros tipos de embarcações que eram movidas a motor Diesel e que tinham sistemas auto-adriçantes para endireitarem as embarcações quando estas “faziam da quilha portaló”.
Estes sistemas não funcionavam só para pôr a embarcação direita, nomeadamente tinham um dispositivo que fazia parar o motor quando a embarcação se virava e arrancavam-no automaticamente quando a embarcação ficava direita.
Tudo isto se devia à técnica mas os verdadeiros heróis eram os patrões e membros das guarnições dos salva-vidas que saiam para o mar quando as restantes embarcações que lá andavam, na pesca ou noutros afazeres, se faziam aos portos para fugir às tempestades.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

A Rota dos Navios Negreiros



(Três séculos de vergonha no mar)

Paulo A.D. Barbosa

Mare Nostrum

Preâmbulo

Mare Nostrum

Mare Nostrum
O tráfico negreiro era o transporte forçado de negros com escravos para as Américas e para outras colónias de países europeus, durante o período colonialista.
A escravatura foi praticada por muitos povos, em diferentes regiões, desde as épocas mais antigas.
Na idade moderna, sobretudo a partir da descoberta da América, houve um florescimento da escravidão. Desenvolvendo-se então, um cruel e lucrativo comércio de homens, mulheres e crianças entre a África e as Américas. A escravidão passou a ser justificada por razões morais e religiosas e baseada na crença da suposta superioridade racial e cultural dos europeus.
Por exemplo, os portugueses, já usavam o negro como escravo antes da colonização do Brasil, nas ilhas da Madeira, Açores e Cabo Verde. O tráfico para o Brasil, embora ilegal a partir de 1830, somente cessou em torno de 1850, após a aprovação de uma lei da autoria de Eusébio de Queirós, depois de intensa pressão do governo britânico, interessado no desenvolvimento do trabalho livre para a ampliação do mercado consumidor.
Tinha sido a 25 de Março de 1807, que o Parlamento de Londres, aprovou a legislação a interditar o comércio de seres humanos, a “Abolition of the Slave Trade”, e os portugueses que se dedicavam ao negócio de transporte de escravos africanos para o Brasil tiveram de improvisar. A lei previa uma multa de 100 libras por cada escravo encontrado a bordo, para evitar tais contrariedades, os navios negreiros com bandeira lusitana, passaram a ter um ou vários fundos falsos. A carga mais valiosa, os escravos, era escondida, e a que ficava à vista “era para inglês ver”.
Iniciado na primeira metade do séc.XVI, o tráfico de escravos negros de África para o Brasil teve grande crescimento com a expansão da produção de açúcar, a partir de 1560 e com a descoberta de ouro, no séc.XVIII. A viagem para o Brasil era dramática, cerca de 40% dos negros embarcados morriam durante a viagem nos porões dos navios negreiros, que os transportavam. Mas no final da viagem sempre havia lucro. Os principais portos de desembarque no Brasil eram a Baía, Rio de Janeiro e Pernambuco, de onde seguiam para outras cidades.
Segundo o historiador David Richardson, entre 1698 e 1807, mais de três milhões de escravos foram transportados em navios do Reino Unido. Ao longo de quatro séculos, mais de 27 milhões de africanos foram vendidos como mercadoria, mas a maioria nunca chegou ao destino.
O uso de mão de obra africana no Caribe e no sul das colónias inglesas da América do Norte formou uma grande rede empresarial que comprava escravos já apresados no litoral de Angola e Guiné, trazendo-os para a América. O tráfico de escravos causou verdadeira sangria em África, alimentou guerras internas, abalou organizações tradicionais, destruiu reinos, tribos e clãs e matou criminosamente milhares de negros.
Durante meio século, a Jamaica foi base de operações dos mais cruéis piratas, passando depois a ser um dos grandes centros de tráfico de negros.

Mare Nostrum: Introdução

Mare Nostrum: Introdução

Introdução

A história do tráfico è por demais complexa e remota, cabendo às mais antigas sociedades das nações e a todos os povos da alta antiguidade, portanto não cabendo aos portugueses a sua primazia, que por sua vez são descendentes de povos que também foram escravizados e dominados por outros mais poderosos.
A escravidão histórica que è própria de todas as sociedades humanas, numa fase da sua evolução política desenvolve a chamada escravidão mercantil. É no princípio do séc.XV que se puseram os primeiros navegantes cristãos em contacto com os escravos da costa africana do Oeste. Foi no ano de 1432 que o navegador português Gil Eanes introduziu em Portugal a primeira leva de negros escravos e é a partir desta época que os portugueses passam a traficar os escravos com as ilhas da Madeira, Porto Santo, de seguida para os Açores, Cabo Verde e finalmente para o Brasil.
Em meados do séc.XVI devido ao estabelecimento do Governo Geral, o que pesa para Portugal a respeito ao tráfico negro, pesa também sobre a França, Espanha, Holanda e especialmente sobre a Inglaterra, pois cabe-lhe a primazia como vanguardista no tráfico e no comércio de escravos, autorizado no reinado de Eduardo VI e começando no reinado da Rainha Elizabeth no séc.XVI, (foi a própria rainha, o príncipe Rupert e o duque de York, os fundadores da tristemente famosa Real Companhia de África especializada na captura e venda de escravos), sendo John Hawkins o primeiro inglês a empreender o comércio de negros escravos.
A história dos navios negreiros, è a mais comovente epopeia de dor e de desespero da raça negra. Homens, mulheres e crianças eram amontoados nos cubículos monstruosamente escuros das galeras e dos navios negreiros onde se iam misturando com o bater das vagas e o ranger dos mastros na vastidão dos mares. A fome e a sede de mãos dadas com as doenças que se propagavam nos ambientes estreitos, passavam pelos moribundos e não lhes ceifava a vida, concedendo-lhes perdão e misericórdia que não encontravam aconchego nos corações dos homens, daqueles homens severos e maus de todas as embarcações e que só se preocupavam com o negócio rendoso que a escravatura oferecia.