quarta-feira, 23 de dezembro de 2009



Isto foi o começo para que o espírito aventureiro de conquista do português criasse hábito no continente africano, em busca de um comércio, não obstante desumano e humilhante, porém fácil e estreitamente rendoso. As coisas cresceram tanto, que em pouco tempo já se podia sentir Lisboa com um cheiro de cidade mulata, assim como mexer com a imaginação poética dos trovadores, Gil Vicente, Camões e, em especial, Garcia de Resende.
Mas, com o passar do tempo, longe de se pensar na extinção dessa actividade, ela toma um impulso vigoroso, agora com o forte aval da igreja, com a justificação de que os portugueses fariam os povos ditos bárbaros adeptos de Cristo.
A confirmar o apoio da Igreja Católica, basta olhar para a enxurrada de bulas que se seguiram. O papa Eugénio IV pelas “Dudum cum”, de 31 de Julho de 1436, “Rex Regnum”, de 8 de Setembro de 1436 e ainda a “Preclaris tuis”, de 25 de Maio de 1437, renovou a concessão a D. Duarte de todas as terras que conquistasse em África, desde que o território não pertencesse a príncipe cristão. Não ficou por aqui o privilégio!
No pontificado de Nicolau V, D. Afonso V o infante D. Henrique e todos os reis de Portugal assim como seus sucessores, passariam a donos de todas as conquistas feitas em África, assim como das ilhas nos mares a elas adjacentes, começando pelos cabos Bojador e Não e terminando na Guiné, com toda a sua costa meridional, incorporando, a tudo isso, as regalias que o cérebro humano imaginasse tirar dessas terras e desses povos. Essa pequena bagatela de oferendas foi concedida pela bula “Romanus Pontifex Regni Celestis Claviger”, de 8 de Janeiro de 1454.
Esses favores eram normalmente confirmados pelo papa que ascendia ao pontificado. E nessa matéria, o recorde foi batido pelo papa Calixto III com a célebre bula “Inter caetera que nobis divina disponente clementia incumbunt peragenda”, de 13 de Março de 1456, a qual, além de confirmar todas as dádivas anteriores, acrescentou a Índia e tudo mais que depois se adquirisse, concluindo com «o descobrimento daquelas partes o não possam fazer senão os reis de Portugal». A mesma orientação seguiu Sistro IV, com as bulas “Clara devotionis”, de 21 de Agosto de 1471 e “Aeterni Regis clementia per quam reges regnant”, de 21 de Julho de 1481, Inocêncio VII valeu-se das bulas “Ortodoxas fidei”, de 18 de Fevereiro de 1486 e “Dudum cupiens”, de 17 de Agosto de 1491.
No meio desta confusão da Santa Sé, deve-se fazer justiça a alguns papas, que protestaram contra semelhante estado de coisas (como Pio II com uma bula de 7 de Outubro de 1462, Paulo III em 1537, Urbano VII com a bula de 22 de Abril de 1639, Bento XIV em 1741, Pio VII em 1814 e finalmente Gregório XVI pela bula de 3 de Dezembro de 1839), condenando e proibindo a escravidão de negros.
Esse casamento estranho da coroa portuguesa com a “Mitra” permitiu que os portugueses agissem livremente, em nome de Cristo Nosso Senhor e da sua santa fé, o que para tanto não fizeram cerimónia. E é assim que, pouco tempo depois dessas concessões, descobrem a grande colónia da América do Sul. A principio, era a terra de Santa Cruz, para depois passar a ser colonizada com o nome de Brasil.
Argumenta-se que a sobrevivência das primeiras engenhocas, o plantio de cana-de-açúcar, do algodão, do café e do fumo (tabaco), foram elementos decisivos para que
a metrópole enviasse para o Brasil os primeiros escravos africanos vindos de diversas partes de África, trazendo consigo os seus hábitos costumes, música, dança, culinária, língua, mitos, ritos e religião, que acabou por se infiltrar no povo, formando, ao lado da religião católica, as duas maiores religiões do Brasil.
Os negros fortes, retintos e amontoados também se tornavam feras onde o dia se confundia com a noite pois as levas de negros que embarcavam na costa de África provinham de diferentes pontos e de diferentes raças e eram misturadas como carga comum nos bojos dos navios negreiros.
Os gemidos dos moribundos vinham juntar-se a algaravia das diferentes línguas dos Mandingas, Felupos, Cabindas, Gejes, Fulas, Congos, Bundas, Libolos, Caçanjes e tantas outras tribos, desconhecidas umas das outras, rosnavam como feras furibundas e dilaceravam-se mutuamente nas mínimas disputas. Depois de embarcadas, por vezes o mar era o seu destino, isso normalmente acontecia quando o navio negreiro sofria qualquer assédio de navios piratas, aí, a tripulação recebia ordens do comandante (que era sempre um bárbaro), para atirar ao mar os negros agonizantes, afim de aliviar a carga e tornar o barco mais ágil para as manobras.

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