
Eram mulheres ainda novas vestidas de escuro, como que sempre á espera de uma má notícia. Mostravam-se definhadas e ansiosas que chegasse o carteiro. Havia quase cinco meses que os maridos tinham partido para a viagem e, até aquela data, nada de notícias.
Todas as manhãs aguardavam uma carta que lhe viesse consolar o dorido coração, mas sempre o carteiro passava sem lhes entregar qualquer missiva. E não era raro, à noite, ver algumas dessas mortificadas mulheres, ajoelhadas na calçada, em frente da imagem dos Senhor dos Aflitos, que se encontrava sempre iluminada com uma lamparina de azeite.
Assim, nesta prolongada e enorme ansiedade, se iam passando os tristes dias e as noites sem fim, em que, como gaivotas ligeiras, os saudosos pensamentos e os sonhos inquietantes voavam, velozmente, para muito longe, por sobre as vagas dos oceanos.
E havia razão para tal, porque um grande temporal, com ventos ciclónicos tinham açoitado o Atlântico Norte, pondo em sério risco os frágeis navios bacalhoeiros que pescavam nos bancos da Terra Nova.
Mas, finalmente, haveria um dia em que os navios regressavam e as humildes e resignadas mulheres já tão sacrificadas pelas preocupações, incertezas e saudades, sentiam-se agora todas contentes com a chegada dos entes queridos!
Saudades
De onde vindes, ó gaivotas
Que notícias nos quereis dar?
Acaso vistes as frotas
Que daqui foram vogar,
Para as regiões remotas
Só de bruma e de mar
Vistes lá os pescadores,
Nos seus dóris, a remar,
Esses homens sofredores
De dia, sempre pescar,
E à noite, cheios de dores
A escalar e a salgar?
Contai-nos, ó gaivotinhas
Tende de nós piedade!
Pois andamos raladinhas
De sofrer tanta saudade,
Sem saber quaisquer coisinhas
Que nos tragam felicidade.

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