sexta-feira, 24 de abril de 2009

As Guerras do Bacalhau


O bacalhau foi uma revolução na alimentação, porque na época os alimentos estragavam pela precária conservação e tinham a sua comercialização limitada. O método de salgar e secar o alimento, além de garantir a sua perfeita conservação mantinha todos os nutrientes e apurava o paladar. A carne do bacalhau ainda facilitava a sua conservação salgada e seca, devido ao baixíssimo teor de gordura e à alta concentração de proteínas. Um produto de tamanho valor sempre despertou o interesse comercial dos países com frotas pesqueiras. Em 1510, Portugal e Inglaterra firmaram um acordo contra a França. Em 1532, o controle da pesca do bacalhau na Islândia deflagrou um conflito entre ingleses e alemães conhecido como as “Guerras do Bacalhau.” Em 1585, outro grande conflito envolveu ingleses e espanhóis.
Por isso, ao longo dos séculos, várias legislações e tratados internacionais foram assinados para regular os direitos de pesca e comercialização do tão cobiçado pescado. Actualmente, com a espécie ameaçada de extinção em vários países, como o Canadá, tratados internacionais de controlo da pesca estão sendo revistos, com objectivo de assegurar a reprodução e preservação do “Príncipe dos Mares”.

A Indústrialização


Foi o mercador holandês Yapes Ypess que fundou a 1ª indústria de transformação na Noruega e è considerado o pioneiro na industrialização do peixe.
A partir daí, a crescente demanda na Europa, América e África foi aumentando o número de barcos pesqueiros e de pequenas e médias indústrias pela costa norueguesa, transformando este país no principal pólo mundial de pesca e exportação do bacalhau.

Os Portugueses


Devemos aos portugueses o reconhecimento por terem sido os primeiros a introduzir, na alimentação, este peixe precioso, universalmente conhecido e apreciado.
Os portugueses descobriram o bacalhau no séc. XV, na época das grandes navegações. Precisavam de produtos que não fossem perecíveis, que suportassem as longas viagens, que lavavam às vezes mais de três meses de travessia pelo Atlântico.
Fizeram tentativas, com vários peixes da costa portuguesa, mas foram encontrar o peixe ideal perto do Pólo Norte. Foram os portugueses os primeiros a ir pescar o bacalhau na Terra Nova (Canadá), que foi descoberta em 1497. Existem registos de que em 1508 o bacalhau correspondia a 10% do pescado comercializado em Portugal.
Já em 1596, no reinado de D. Manuel, se mandava cobrar o dízimo da pescaria da Terra Nova nos portos de entre Douro e Minho.
O bacalhau foi imediatamente incorporado nos hábitos alimentares e é até hoje uma das suas principais tradições. Os portugueses que se tornaram os maiores consumidores de bacalhau do mundo chamado por eles carinhosamente de “ fiel amigo”. Este termo carinhoso dá bem uma ideia do papel do bacalhau na alimentação dos portugueses.

A Ansiedade



Eram mulheres ainda novas vestidas de escuro, como que sempre á espera de uma má notícia. Mostravam-se definhadas e ansiosas que chegasse o carteiro. Havia quase cinco meses que os maridos tinham partido para a viagem e, até aquela data, nada de notícias.
Todas as manhãs aguardavam uma carta que lhe viesse consolar o dorido coração, mas sempre o carteiro passava sem lhes entregar qualquer missiva. E não era raro, à noite, ver algumas dessas mortificadas mulheres, ajoelhadas na calçada, em frente da imagem dos Senhor dos Aflitos, que se encontrava sempre iluminada com uma lamparina de azeite.
Assim, nesta prolongada e enorme ansiedade, se iam passando os tristes dias e as noites sem fim, em que, como gaivotas ligeiras, os saudosos pensamentos e os sonhos inquietantes voavam, velozmente, para muito longe, por sobre as vagas dos oceanos.
E havia razão para tal, porque um grande temporal, com ventos ciclónicos tinham açoitado o Atlântico Norte, pondo em sério risco os frágeis navios bacalhoeiros que pescavam nos bancos da Terra Nova.
Mas, finalmente, haveria um dia em que os navios regressavam e as humildes e resignadas mulheres já tão sacrificadas pelas preocupações, incertezas e saudades, sentiam-se agora todas contentes com a chegada dos entes queridos!


Saudades
De onde vindes, ó gaivotas
Que notícias nos quereis dar?
Acaso vistes as frotas
Que daqui foram vogar,
Para as regiões remotas
Só de bruma e de mar

Vistes lá os pescadores,
Nos seus dóris, a remar,
Esses homens sofredores
De dia, sempre pescar,
E à noite, cheios de dores
A escalar e a salgar?

Contai-nos, ó gaivotinhas
Tende de nós piedade!
Pois andamos raladinhas

De sofrer tanta saudade,
Sem saber quaisquer coisinhas
Que nos tragam felicidade.

Lá para os mares do Norte


Será que quando “o fiel amigo” chega às nossas mesas, alguém pensa nos pobres pescadores da nossa terra e na vida terrível que lhes caiu em sorte?
Nos lugres, em grade formação, todos de branco, começar a largada pelo Tejo fora. Depois, no Atlântico, rume ao Noroeste, as velas enfunadas pelo vento rijo, passara um, depois outro, como numa regata.
E já próximo da zona de pesca quando todos sentem mais frio, nas cartas de navegar fica assinalada uma nova posição e a sonda diz serem menores as profundidades, amostras, vindas do fundo, são de areia e de fragmentos de conchas.
È o banco, o Grande Banco dos bacalhaus.
Então, debaixo de nevoeiro, sempre frequente nessa época estival, dado o encontro mais intenso das duas correntes de temperatura diferente. A fria é mais caudalosa pois è altura dos degelos, lá para o Norte. Também por isso pode arrastar os «icebergs», quantas vezes visíveis só depois de o navio lhes estar em cima, perdido para sempre.
Quando desce a amarra e o veleiro fundeia, há azáfama a bordo pois vão-se arriar os dóris. Há anzóis no mar, em breve surgem as primeiras vítimas da gulodice e da fome; os vorazes bacalhaus.
Centenas de aves circundam os dóris, as gaivinas, gaivotas, painhos, cagarras e pombalêtes, tão usadas pelos nossos pescadores como isco na pesca do bacalhau, desde que de outros iscos não dispunham.
Será que se lembram, do trabalho obscuro, brutal, que não mais pára enquanto os porões do lugre não estiverem a abarrotar?
Mas também há interrupções! Quando o peixe falha, quando o mar não quer. E de repente, quase sem transição. Vem a bruma, como um manto, tudo envolvendo desde o horizonte. Ainda há dóris no mar, com pescadores regelados remando para onde julgam estar o navio, que tantas vezes não mais encontram. Só se ouve o badalar do sino, em tom plangente, sinistro, no meio da escuridão, ou então a voz cava do «foghorn» enquanto ao longe, outros barcos, apitam com força ou largam foguetões.
De outras vezes è o vento, a terrível brisa dos Bancos que tantas vezes acaba em franco temporal. Há então amarras quebradas, mastaréus partidos, navios desgarrados, correndo com o tempo, ou lutando, de capa, com as vagas, vencendo ou sendo vencidos, (naufragando). Quando o tempo amaina, não vem por isso o descanso às esgotadas tripulações, há que procurar novo sítio para que a pesca, a campanha, possa ir até ao fim.
A bordo ainda tem mãos o pobre escalador, e nos porões; os homens da salga, metidos pelas pilhas compactas de onde escorre uma salmoura viscosa, e a atmosfera cada vez mais húmida, só querem nadar no peixe, ir com as costas até ao tecto, para poderem, enfim regressar. Os dóris voltam a descer, durante dias, durante meses…
Todos trabalhando rudemente, brutalmente, com as barbas hirsutas, os corpos suados de muitos meses pensando sempre na Terra, na família e no pão que andam conquistando.

A Descoberta



Julga-se que os verdadeiros descobridores da Terra Nova foram os nossos compatriotas João Vaz Corte Real e Álvaro Martins Homem, os quais, em 1463,segundo uns, de 1472 a 1473, segundo outros, a teriam revelado ao mundo moderno, baptizando-a de Ilha dos Bacalhaus. Ao que parece, João Vaz embarcara como companheiro de uma expedição dinamarquesa, largando da Islândia, como base de operações.
Demandavam eles um outro caminho que nos levasse à Índia, pois era necessário cortar, de que forma, as rotas do Mediterrâneo, que faziam de Veneza e Génova os grandes empórios comerciais daquele tempo.
Já não bastava o caminho de África, o caminho bem delineado do sueste, visto que estes novos capitães a demandavam pela passagem gelada do setentrião, onde se vieram afinal a perder para sempre, embora depois de encontrarem uma grande ilha, a Terra Nova. È assim que um ao outro português, Gaspar Corte Real, também no encalço da aventura e do mistério daquelas paragens tão frias, navegando, pelo actual Estreito de Davis, até ao circulo Polar Árctico, na Gronelândia, e, daí, até às costas do Labrador, revela a Terra Nova, no anos de1500, dando assim publicidade à ilha que seu pai teria descoberto. È de Gaspar Corte Real a primeira carta da Terra Nova.
Do seu irmão Miguel Corte Real, sabe-se que largou de Lisboa em 1502, com rumo à Terra Nova (è a passagem do noroeste), onde naufragou. Conseguiu passar do continente americano, antecedendo por uma dúzia de anos Verrazzano, que se supunha ser o primeiro navegador europeu a visitar a costa norte americana designada por Estados da Nova Inglaterra. Aí se fixou, vivendo com os índios, que o arvoravam seu chefe, tendo deixado o nome e data de 1511 gravada na célebre Pedra de Dighton, nas margens do Rio Tauton, onde provavelmente veio a morrer. A outros portugueses couberam ainda a exploração das terras setentrionais do ocidente.
Com efeito, não falando dos muitos e arrojados marinheiros que, dos Açores, partiram em busca da «Décima Ilha» e de outras terras mais distantes: João Álvares Fagundes, que reconhece a Terra Nova, também chamada «Fagundes»; João Fernandes Labrador e Pedro de Barcelos, que descobriram a Península de Labrador (1492) João Martins, piloto do Capitão Maldonado, que teria conseguido desvendar a almejada passagem boreal, do Atlântico ao Pacífico, pelo noroeste; finalmente David Melgueiro, que navegou do Japão ao Porto, pelo Estreito de Behring e Oceano Glacial Árctico, até ao 84º de latitude norte e, daí, pelo Canal de Spitzbergen e Gronelândia e as Ilhas Britânicas, até chegar às costas de Portugal, assim descobrindo outra passagem setentrional, pelo nordeste, numa viagem aventurosa que poucos mais haviam de repetir, mesmo nos tempos modernos.
Mas a outra descoberta havia sido a do “fiel amigo” que não mais deixaria, de nos interessar, chegando à honra, única em todo o orbe, de nosso prato nacional.

Epílogo

Assim, a pesca do bacalhau è pelo menos uma das grandes tradições portuguesas, hoje em franco progresso, pelo aumento e melhoria dos meios técnicos de produção, embora ainda bem longe da abastança de tempos anteriores chegando mesmo a estar em vias de extinção em certos locais.
Por exemplo, na Terra Nova a pesca comercial do bacalhau está encerrada desde 1993 e, apesar disso os seus stocks ainda não recuperaram. Tradicionalmente, sempre foi uma espécie resistente à pressão da pesca, devido ao facto de pôr bastantes ovos durante a época reprodutiva, mas, no Atlântico Norte subsiste hoje apenas um sexto do peixe que havia à cem anos. O bacalhau, de que Portugal è o maior consumidor do mundo, já se tornou numa das espécies em risco, e, alguns cientistas temem que o bacalhau esteja a caminho da extinção.
Será que somente resta ao nosso “fiel amigo” o caminho da aquicultura?
Especialistas prevêem que, em 2035, metade do peixe consumido provirá deste método.
A pesca do bacalhau foi a última aventura dos portugueses no mar, a última saga épica e dramática, que não por acaso persistiu até 1974, espécie de ano de regresso das caravelas, quando os últimos três navios de pesca à linha regressaram com as suas tripulações em greve, a exigirem salários melhores.